Thomas Henrique de Toledo Stella – Piracicaba, SP/USP/Unicamp
Resumo:
A apresentação analisa a relação do Estado faraônico com as principais tradições
religiosas do Antigo Egito, considerando suas cosmogonias e respectivos demiurgos.
Objetiva-se compreender a conexão entre as mitologias e o poder estabelecido. São
apresentadas sinteticamente as cosmogonias e as divindades da Enéada de Heliópolis, da
Ogdóade de Hermópolis e das tríades de Mênfis, Tebas e Esna, identificando a importância delas na História. Considera-se que existe simbiose da instituição dos templos com o Estado faraônico e que as tradições religiosas egípcias sobreviveram principalmente enquanto essas estruturas funcionavam.
Palavras-chave: Antigo Egito, Cosmogonias, Demiurgos.
Introdução
Este artigo é a versão escrita de uma comunicação apresentada no III Encontro do GT de
História Antiga e Medieval da ANPUH-SC, realizado em Florianópolis/SC na UFSC nos dias
16 e 17 de novembro de 2017.
Ele está estruturado em quatro partes. A primeira, intitulada “A monarquia divina”, trata do
carácter sagrado atribuído ao poder faraônico ao longo da história egípcia. A segunda,
“Tradições religiosas, cosmogonias e demiurgos” apresenta os aspectos mais gerais das
principais vertentes espirituais egípcias e suas respectivas divindades. Na terceira, é abordada
“A relação do poder sacerdotal com o Estado faraônico”. Na quarta, analisa–se a “Queda do
regime faraônico” sob a perspectiva do tema em questão.
Conclui-se com a apresentação dos resultados deste estudo que teve por objetivo compreender
a relação entre o poder faraônico e a diversidade religiosa no Antigo Egito, manifestada nas
cosmogonias com seus respectivos demiurgos.
A monarquia divina.
Na religiosidade do Antigo Egito, a espiritualidade estava integrada a todos os aspectos da vida social, política e econômica. Tratava-se de uma cultura plurirreligiosa, na qual diversas divindades, panteões, cosmogonias e tradições religiosas distintas conviviam simultaneamente. Os templos integravam-se com o poder estabelecido, em uma relação de mútua dependência. Ao longo dos mais de três milênios de história faraônica, diferentes tradições religiosas com suas respectivas divindades ascenderam e/ou descenderam a depender do epicentro político e econômico em evidência. Havia sempre uma identificada com o Estado, a “oficial”, e outras que se mantinham pela força de seu clero, liturgia e bens.
Também praticava-se tipos de religiosidade de caráter popular, sem vínculos com a coroa ou com os grandes templos.
O regime político faraônico era essencialmente teocrata (WILKINSON 2003, p. 6), no sentido de não haver separação entre o poder político e o religioso, tal qual nos Estados modernos. Dos primórdios da fundação do Estado egípcio e até mesmo depois de seu desmonte com a conquista romana, prevaleceu o conceito ideológico de “monarquia divina”.
Isto significa que o Rei era não apenas um representante das forças divinas como ocorria em outras monarquias do Antigo Oriente Médio (CARDOSO 1994, p. 49), mas ele próprio era um Deus encarnado (WILKINSON 2010, p. 38).
Em termos arquetípicos, a representação iconográfica do monarca segurando pelos cabelos o inimigo ajoelhado com uma mão e portando uma clava erguida na outra foi reproduzida em todo o contexto faraônico, desde a Paleta de Narmer (WILKINSON 1999, p.40). Tal representação aparece em estelas, templos e construções do Período Arcaico (3,1 mil-2,7 mil aEC) ao Ptolomaico (332-30 aEC). Ela significava a imposição da ordem (a natureza divina, o Estado e o poder faraônico,) sob o caos (o estrangeiro, a barbárie e a desordem social), uma tarefa que cabia ao Rei (WILKINSON 1999, p. 49).
Um dos mais elementares princípios para se entender tal relação é o conceito de Maat.
Representada por uma deidade feminina alada com uma pena sobre a cabeça, Maat era muito mais do que uma Deusa, mas a síntese do que era verdadeiro, justo e correto (WILKINSON 2003, p. 190). Para que o universo estivesse em perfeito funcionamento, era necessário que Maat estivesse estabelecida no plano terreno (WILKINSON 1999, p. 177). O Rei deveria reinar soberanamente e praticar os rituais mágicos sazonais de acordo com a liturgia oficial. O papel do soberano não estava circunscrito às questões políticas, econômicas e militares, mas também espirituais, realizando os rituais mágicos, feitiços, prodígios e encantamentos típicos da cultura egípcia. Reinar era, portanto, além de uma tarefa mundana, uma responsabilidade para com os Deuses.















