web analytics
Home / Kemetismo / Existe Teologia Egipcia ? – 4

Existe Teologia Egipcia ? – 4

HEKA: UM CONCEITO TEOLÓGICO.

Conforme estamos demonstrando neste artigo, pensar em um conceito de teologia egípcia é uma operação extremamente complicada porque os antigos egípcios não tinham este conceito em sua língua nativa. Tendo isso em mente, calculemos como é difícil definir o que é a religião egípcia, pois, tal qual o conceito de teologia, este povo também não desenvolveu um conceito de religião. Justamente a característica mais pesquisada na história dessa cultura não ganhou um nome próprio para designar a si mesma. Reafirmamos aqui o que dizemos algumas páginas acima, que acreditamos poder usar um conceito que não exista em uma dada cultura para expressar um entendimento sobre tal sociedade, no entanto, este empreendimento é muito complicado e deve ser feito com cautela.

Diversamente do conceito de teologia, existe um conceito nativo que se “aproxima” de religião, e este é o conceito de heka. Ritner afirma que podemos encontrar antecessores deste termo deste o Antigo Reino e podemos perceber sua evolução até mesmo no Período Romano (30 a.C. – século IV d.C.) (Ritner, 2008, p. 15). A grande problemática é que heka é entendido como magia e este conceito é normalmente malvisto dentro da academia. Para ficarmos em dois exemplos:

“Em alguns feitiços, se o mago nomeia esse ou aquele deus, a razão para isso é encontrada nos episódios que ocorrem nas lendas dos deuses; um deus que uma vez triunfou sobre as serpentes devem ser a melhor escolha contra elas, e uma deusa que se tivesse educado para criar uma criança seria a melhor ajuda para uma mãe moribunda. E com apenas um senso comum de aludir diretamente a esses protótipos, foi composta uma forma de feitiço que consiste em um episódio da história dos deuses, da qual a aplicação prática pode ser feita.”

(Erman, 1907, p. 150).   

No trecho citado acima, Erman vê a magia como auxílio forçado dos deuses ou como uma reprodução dos mitos divinos a partir de ações humanas com a finalidade de se atingir um objetivo específico. Agora vejamos como Gardiner define este conceito:

“as ações mágicas podem, portanto, para nossos propósitos, ser definidas como aquelas ações que os homens realizaram para seu próprio benefício ou para o benefício de outros homens vivos, e que exigiram certos poderes miraculosos para seu desempenho. Deve-se advertir contra dois equívocos: em primeiro lugar, deve-se entender claramente que os deuses e os mortos podem, como de fato costumam fazer, entrar nas dramatis personas do ritual mágico; o princípio da divisão não é de quibus, mas cui bono; em segundo lugar, a magia assim definida não diferia essencialmente do mecanismo dos cultos dos mortos e dos deuses, nem era necessariamente considerada com sentimentos de reprovação moral.”

(Gardiner, 1916, p. 263A – 263B. Grifos do autor).

Foi possível perceber que não há praticamente diferença entre estes dois autores. Existe, no entanto, um detalhe curioso que não ainda não citamos. Eles não estão preocupados em dizer o que é heka, pois, como já veremos, ambos os autores classificam heka de uma maneira diferente. O que eles estão fazendo é conceituar o que seria magia como conceito universal (Ribeiro, 2017). Erman concebe o heka como algo sagrado, que pertencia aos deuses, mas que se tornou o princípio da arte mágica (Erman, 1907, p. 162 – 163). Já Gardiner concebe heka como poder mágico (Gardiner, 1916, p. 262B). Percebe-se claramente que há uma diferença na forma como Erman e Gardiner compreendem este conceito.

Voltando a Ritner é preciso se ter em mente que o autor compreende plenamente todas essas problemáticas. Não apenas isso, ele nos demonstra como o conceito de magia acabou sendo usado como uma arma simbólica, uma maneira de separar os grupos humanos entre “nós” e “eles”:

“Magia é aqui simplesmente as práticas religiosas de um grupo visto com desdém por outro. Como no anúncio citado, o conceito “magia” serve para distinguir “nós” de “eles”, mas não tem conteúdo universal. Sua religião é a minha magia e, assim, em inglês, a África não tem sacerdotes, mas “feiticeiros”.

(Ritner, 2001, p. 44).

Ainda que com todos os problemas apresentados, o autor não acha válido abandonar o termo magia para o estudo da sociedade egípcia. Como ele próprio salienta, não foram os gregos ou os romanos que cunharam um termo para a prática religiosa egípcia, foram os nativos que o fizeram a partir da palavra heka. Logo o estudo da magia deve ser mantido como uma categoria do pensamento egípcio (Ritner, 2008, p. 14).

Se heka é uma categoria própria do pensamento egípcio, deve se perguntar, portanto, o que ela significa para aquele povo. Trabalhando com o Texto do Sarcófago 261, Ritner nos demonstra como heka aparece como filho do próprio criador, na verdade, ele é algo a mais que isso, heka é anterior a palavra da criação, ele é a própria possibilidade para que a criação aconteça (Ritner, 2008, p. 17). Porém, não podemos cair na tentação de entender heka apenas como uma força criadora, ela é algo que está no universo, que está nos homens e nos deuses, e que os homens usam em seus cultos. Nas palavras do autor:

“Como a força preeminente através da qual o criador engendrou e sustentou o cosmos ordenado, era necessário a energia” dinâmica que o ritual religioso egípcio procurava canalizar para que pudesse atingir seu objetivo idêntico, a preservação do universo do criado.”

(Ritner, 2008, p. 247).

Devemos então nos perguntar o que o autor entende por heka. Ritner se apropria de uma definição de Lexa, egiptólogo o qual não tivemos acesso, e define magia como ações fora da lei de causa e efeito:

“para o propósito deste estudo, qualquer atividade que busque obter seu objetivo por métodos fora das leis simples de causa e efeito será considerada “mágica” no sentido ocidental. Até que ponto essa “definição de trabalho” da magia está de acordo com a compreensão egípcia do heka, espera-se que se torne mais clara no curso da investigação. Apenas tal abordagem do heka egípcio foi sugerida em 1925 por Lexa, que acrescentou uma advertência significativa: as concepções ocidentais e egípcias de ações mágicas nem sempre se ajustam, pois certos atos que parecem dependentes da lei da causalidade a uma cultura podem ser vistos como “mágico” por outro. Assim, um remédio para cabelos grisalhos que incorpora o sangue de um touro negro pode refletir uma compreensão “primitiva” do sangue como portador e transmissor das qualidades do animal, enquanto outra cultura pode ver no ato apenas “magia por contágio”. Na prática real, no entanto, tais exemplos são muito poucos e de modo algum viciar a utilidade inigualável de atividade como o diagnóstico de magia.”

(Ritner, 2008, p. 69-70).

O nosso leitor deve estar se perguntando qual a pertinência deste debate, tendo em vista que o tópico em questão é dedicado ao conceito de teologia formulado por Ritner. Esse debate é essencial porque o conceito de teologia desse autor está diretamente conectado ao termo heka e, acreditamos que seria de mais fácil entendimento se primeiro explicássemos o que é este conceito, para só então partirmos para o entendimento do que seja teologia.

Conforme já dizemos, heka pode ser entendido como uma energia, um poder que tanto os deuses como os homens eram capazes de manipular. É a partir da ideia de manipulação deste poder que o autor formula o que seria teologia para ele:

“A manipulação cúltica dessa “energia” por recitação, substância e ritual constituía, assim, um sistema sofisticado de “teologia prática”, “uma” teurgia “na qual o sacerdote literalmente” executava as obras de deus. “Conformando-se a clássica a terminologia antropológica de Arnold van Gennep, os atos “mágicos” egípcios são mais bem compreendidos como a técnica da religião, a “mecânica mágica” da adoração do culto.”

(Ritner, 2008, p. 247).

Logo após descrever a maneira como heka criou o mundo, o autor descreve o motivo de heka gerar reflexões teológicas nos egípcios:

“Essa “ka-teologia” da qual Heka é o patrono gera o “princípio imagístico” que é fundamental para toda especulação teológica egípcia sobre a unidade da criação: a profusão de divindades no panteão pode ser vista como “imagens” ou projeções de “um deus que se transformou em milhões”, os animais são imagens de deuses e demônios, estátuas e relevos são imagens animadas da divindade, o  Faraó é ao mesmo tempo herdeiro do criador e sua “imagem viva” na terra, conduta dos sacerdotes a liturgia cultual em todo o Egito como a imagem do Rei e dos deuses, estátuas reais são encarnações do Rei, enquanto estátuas particulares e relevos de tumbas são imagens animadas dos mortos, que são em última instância imagens de Osíris (como “assim como Osíris “), et cetera.”

(Ritner, 2008, p. 247 – 249. Grifos do autor).

Na formulação de Ritner, o conceito de heka seria considerado uma teologia, ou melhor, uma obra-prima para o pensamento teológico porque supostamente o mesmo seria capaz de despertar reflexões nos egípcios sobre a criação e o seu caráter divino, se associando, de certa forma, ao henoteísmo de Assman.

O primeiro problema da formulação deste autor é bastante similar a um dos problemas do autor anterior, a saber, a falta de materialidade para afirmar que os egípcios faziam uma reflexão acerca do caráter divino a partir do conceito de heka. Somente os textos funerários não podem fornecer esta materialidade, pois, como sabemos, os mesmos tratam de antigas tradições sobre as divindades, portanto, estão preocupadas não com a criação ou com a natureza divina, mas sim com os fins práticos relacionados a morte.

Além disso, Ritner não se preocupa em dizer em que período começa a reflexão teológica egípcia, se esta um dia se esgotou temporalmente ou se prolongou por toda a histó- ria deste povo. É como se o aparecimento do conceito de heka bastasse para fazer essa separação no tempo, o que de fato não basta, já que como o autor nos mostrou, o mesmo foi encarado de diversas maneiras ao longo do tempo dentro do Egito e não seria nenhum absurdo pensar que deveríamos ter um recorte temporal para podermos começar a falar em teologia.

Em resumo, reconhecemos os esforços intelectuais de Ritner para buscar uma definição de teologia dentro da sociedade egípcia, entretanto falta materialidade para as suas propostas, falta demonstrar nas fontes onde, como e quando essa teologia se manifesta.

Considerações finais  :

Tanto a contribuição de Assman como a de Ritner, são bastante interessantes para pensarmos o caso egípcio, contudo, como demonstramos ambas apresentam sérios problemas.

Guardadas todas as suas diferenças, os conceitos de teologia formulados pelos dois egiptólogos trabalhados acima envolvem a razão. Estão “próximos” de alguma maneira da definição ampla que encontramos para este conceito na temporalidade: “uma análise efetuada pela razão sobre os preceitos da fé” (Pauly, 2006, p. 23). No entanto, as suas reflexões teóricas não conseguem demonstrar nas fontes a existência material dessa teologia. É no mínimo curioso que tenhamos criticado a egiptologia por não apresentar reflexões teóricas sobre os conceitos que usa, ao mesmo tempo que constatamos que as ideias apresentadas por Assman e Ritner acerca do que seria teologia no Antigo Egito não passaram da etapa da reflexão teórica, não se sustentando nas fontes de maneira minimamente razoável, pelo menos não da maneira como feita pelos autores.

Acreditamos que os conceitos são as ferramentas dos historiadores e de todos os cientistas sociais para entender os diferentes povos. Assim sendo, quando uma ferramenta de trabalho não dá conta de cumprir o seu papel, devemos buscar por outra. Esse parece ser o caso específico do conceito de teologia para o Antigo Egito. Até o momento não existe um conceito de teologia que se adeque aquela realidade e talvez em relação a ele naquele contexto, o melhor seja mesmo não o utilizar.

Referências :

ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro. O reconhecimento da teologia como saber universitá- rio: tensões e articulações entre as dimensões confessional e pastoral. In: Ciberteologia – Revista de teologia & cultura. São Paulo: PUC-SP, n. 26, nov.-dez. de 2009. p. 24-34.

ANJOS, Margarida; FERREIRA, Marina Baird. Mini Aurélio século XXI Escolar. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

ASSMAN, J. Egiptian solar religion in the New Kingdom. Londres e Nova York: Kegan Paul International, 1994.

ASSMAN, J. Magic and theology in Ancient Egypt. In: SCHAFER, Peter; KIPPENBERG, Hans. Envisioning. A Priceton Seminar & Symposium. Studies in the history and religion, Leiden, n 75, p. 1 – 18, 1997.

ASSMAN, J. Monoteism and Polytheism. In: JOHNSTON, Sarah I, (org.). Religions of the Ancient World: a guide. Cambridge: Cambridge mass, 2004.

COULON, Laurent. Une trinité d’Osiris thébains sur um relief découvert à Karnak. In: CENiM 3. Montpellier, 2009. p. 01-18.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

ERMAN, Adolf. A handbook of egyptian religion. London: Archibald Constable & Co. LTD., 1907.

GARDINER, Alan H. Magic (Egyptian). In: HASTINGS, James. Encyclopaedia of religion and ethics. Volume VIII. New York: Charles Scribner’s Sons, 1915. p. 262a-269a.

GOMES, Antônio Máspoli de Araújo. A importância da pesquisa em teologia: a teologia da memória ou a teologia da inteligência? In: Revista teológica. São Paulo: Faculdade Teológica Batista, n. 6, jun. de 2016. p. 04-15.

HENDRICHX, Stan; HUYGE, Dirk; WENDRICH, Willeke. Worship without writing. In: WENDRICH Willeke. Egyptian Archaeology. Nova Jersey: Wiley-BlackWell, 2010.

JANÁK. J. The estructure of the egyptian pantheon. In: VACÍN, L. Ancient near eastern studies in memory of Blahosla Hruska. Dresden: ISLET-Verlag Dresden, 2011.

JOÃO, Maria Thereza David. Estado e elites locais no Egito do final do IIIº milênio a.C. Tese (Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2015.

KEMP, B. Old Kingdom, Middle Kingdom and Second Intermediate Period c. 2686-1552 BC. In: TRIGGER, B. G. KEMP, B. J. O‘CONNOR, D. LLOYD, A. B. Ancient Egypt a social history. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

LOPES, Edson P. (et al.) Profissão teólogo e vocação pastoral: reflexões conceituais. In: Ciências da religião – História e sociedade. São Paulo: Mackenzie, v. 8, n. 2, 2010. p. 25-37.

MATHIEU, Bernard. Mais que est donc Osiris? Ou la politique sous le linceul de la religion. In: ENiC, v.3, 2010. p. 77-107.

PASSOS, João Décio. Teologia e outros saberes uma introdução ao pensamento teológico. São Paulo: Paulinas, 2010.

PAULY, Evaldo L. O novo rosto do ensino de teologia no Brasil: Números, normas legais e espiritualidade. In: Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo. São Leopoldo: EST, v. 10, mai.-ago. de 2006. p. 20-35.

RIBEIRO, Thiago H. P. Entre a religião e a magia: (re)pensando do Egito Antigo. In: Revista de estudos sobre Jesus Histórico e sua Recepção. Rio de Janeiro: UFRJ, v. 18, 2017. p. 20-40

RITNER, Robert K. The religious, social and legal parameters of tradicional egyptian magic. In: MAYER, Marvin; MIRECKI, Paul (org.). Ancient magic and ritual power. Boston; Leiden: Brill Academic Publishers, Inc., 2001. p. 43-60.

RITNER, Robert K. The machanics of ancient egyptian magical pratice. Studies in Ancient Oriental Civilization, n. 54. Chicago: The oriental institute of University of Chicago, 2008.

SANTOS, Poliane Vascondi dos. Religião e Sociedade no Egito Antigo: Uma leitura do mito de Ísis e Osíris na obra de Plutarco (I d.C). Dissertação (Mestrado). Assis: Universidade Estadual Paulista, 2013.

TRIGGER, Bruce; KEMP, B. J.; O’CONNOR, D.; LLOYD, A. B. Ancient Egypt a social history. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *